Eu por mim mesma
30 anos, paulistana, corinthiana, blogueira, dona de 4 gatos, viciada em chocolates, séries, cinema e livros, entre outras nerdices.
Entries for April, 2006
April 4th, 2006
Uma cerveja, uma noiva gestante e um café
Um físico, um arqueólogo, um programador e uma loira entram num bar. Parece piada, mas foi minha sexta feira à noite.
Movidos por um desejo incontrolável de tomar cerveja, começamos a noite comendo muitas esfihas e decidindo se deveríamos ou não iniciar uma produção massiva de metanfetaminas usando alguns recursos do Ipem e uma quantidade razoável de xarope para tosse. Depois de sermos informados dos riscos de explosão, concluímos que não era uma boa carreira a seguir.
Depois, Thiago comunica:
- Recebi hoje o segundo aumento do ano!
- mentira...
- E vou comprar um carro!
- Mentira!
- E vou casar com a Regina!
- MENTIRA!!!
Pois é, amigos, Thiko, o solteiro, irá morar com sua namorada... As coisas mudam. Agora só falta o Penin. Aí o Apoclipse chega.
Depois fomos a um boteco simpático comer picadão e tomar cerveja. Original, Serramalte, Bohemia... foram diversas. Comemos um picadão (coisa de louco) e uma porção de provolone, tomamos mais cervejas, conversamos, o Gerson falou palavrão, eu fui elevada à condição de mano do Sesc, Penin elocubrou planos, discutimos política, eu defendi o abraçamento de árvores, Thiago foi contra, falamos mal do Lula, eu e Penin quase choramos de desgosto... Enfim, uma noite normal.
Até que o bar fechou. Enquanto tomávamos as diversas saideras, olhei pra fora:
- Gente, tem uma noiva gestante descendo a Barão do Bananal.
- Aonde?!
- Ali. E vem com o cortejo todo.
Descendo a rua, em direção ao boteco, uma noiva muito grávida liderava um grupo de convidados. Noivo, padrinhos, enfim, tudo que se espera de um casamento. E tentando entrar no bar. O proprietário do boteco, irredutível:
- Estamos fechados!
Meu coração compadeceu-se da situação da pobre moça. Puxa vida, onde já se viu impedir uma noiva gestante de entrar no boteco?
- Ô, noiva...
- Oi?
- Tem outro bar ali embaixo... deve estar aberto, a gente tá indo pra lá.
- Opa! Vambora, pessoal! Finalmente vou poder comemorar meu casamento!
- Aêêêêêêêêêêêê!! U-huuuuu!
Descemos a rua, seguidos pelo alegre grupo de convivas. Na esquina de baixo, o bar fechado.
- Meninos, vamos embora senão a noiva gestante vai achar que eu a enganei de propósito..
- Ué, e não foi?
- Penin!!!
Fugimos correndo e fomos fechar a noite no Fran's. Depois de alguns cafés, com a sobriedade ligeiramente retomada, apavoramos o Thiago com a idéia de ele ser pai muito em breve. O pobre rapaz deve estar até agora com medo.
Na hora de ir embora, mencionei o filme What the fuck do we know, que mostra membros de diversas religiões alterando a química molecular de um copo de água. E eu, a boazinha:
- Pois é, gente, assim vocês podem ver que a verdadeira fé existe e...
- Já sei! Vamos pegar Nova Schin e mentalizar que ela está se transformando em Baden Baden!
- Mas tem que ter fé, Penin!
- Ué. E eu não tenho fé na cerveja?
- É verdade.
Chegando em casa, por volta de seis da manhã, maravilhei-me com o nascer do sol e cheguei à conclusão de que em algum momento da minha vida eu preciso voltar a dormir.
Mas parafraseando Santo Agostinho: não agora, Senhor.
Quando você reúne um grupo que inclui Leonor Maria, Julio Cesar, Mariana, Lulu, Paty, um leitor da Lelê que ninguém conhecia e mais dois corinthianos amigos, tudo pode acontecer. Se este grupo estiver reunido em volta de uma mesa cheia de sushis e sashimis, a coisa tende a degringolar de vez.
Você rapidamente chega à conclusões. Por exemplo, qualquer história que envolva um apelido bizarro e comece com "Porque quando eu tava transando com ele..." é uma história que não vai sair da sua cabeça nunca mais. Talvez você até tenha pesadelos com ela pelo resto da vida.
A flora intestinal do Julio também foi assunto. E isso porque estávamos jantando. Atenção: não telefonem para ele as nove horas da manhã. É um momento de meditação profunda.
*insira aqui sua rima infame*
Depois de receber muito mais informação sobre os hábitos intestinais do Julio do que eu jamais poderia merecer, tento ajudar a Mari:
- Olha, Mari, pra arrumar marido tem uma simpatia que é tiro e queda. Você pega o Santo Antonio, amarra uma fita vermelha e...
- Tá falando o quê, Gabi, você é separada!
- Pelo menos eu me casei, Leonor.
*choram ambas*
Outra coisa: o banheiro do restaurante japonês é perigoso. Uma vez Lelê achou uma gilete no armário. Ontem eu localizei um baralho na segunda gavetinha. Nem quero pensar nas possibilidades.
Ao fim da comilança, uma dúvida pairava no ar: tem café? Eu, desesperada, verifiquei o cardápio. Nada. Prestes a pedir um chá verde, desarvorada, vejo um garçom passar lá atrás com uma bandeja. Gritei:
- Gente, acabei de ver um cara passando com uma xícara...tem café e acho que é Bravo!
- Calma, Gabi...
- Cutuca o moço ali do lado.
- Er... cutucar?
- Moço, moço!
- Pois não?
- Tem café expresso?
- Temos sim. São quantos?
- Eu te amo.
- Como?
- São 5 cafés, obrigada.
Pena que a Mari esqueceu a máquina fotográfica.
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Como toda mulher moderna, feminista e independente, meu sonho secreto é um dia ser resgatada por um príncipe encantado num cavalo branco.
E como toda história de amor, ela tem que começar bem por acaso. Que nem se fosse um filme: A Diane Lane, recém separada, cruza com o Nicholas Cage no supermercado e eles discutem sobre quem vai levar a última garrafa de vinho da prateleira e aí... bom, vocês entenderam.
Aí eu abro meu Orkut por esses dias e tem um recado de um cara desconhecido: "Não te conheço, mas seu sorriso me cativou". Pensei: "Oras, é meu prínicipe encantado! Só pode ser!!"
Nem me passou pela cabeça que na minha foto do Orkut eu não estou sorrindo, estou de perfil e com a mão sobre a boca.
Ignorando as possibilidades, cliquei no nome do moço e abri seu perfil. Vi a foto: "Oras, quem vê cara não vê coração! E ele pode ser bem mais bonito pessoalmente! O Brad Pitt também não sai bem em fotos..."
Fui investigar as comunidades e lá estavam: "Eu adoro Gordinhas!", "Gordinhas são demais", "Gordinhas Brasil".
Lembrei da minha dieta, lembrei da salada que eu tinha comido no almoço, do iogurte da janta, do mamãozinho no café da manhã. De todo o esforço que ando fazendo pra entrar numa porcaria de vestido P da Zara que eu nem posso comprar.
Aí eu desliguei o computador, fiz 150 abdominais e rezei três pai-nossos, pra espantar assombração.
Quando a gente muda, tem que mudar de verdade. O que seria uma separação e uma mudança de apartamento se não estivessem acompanhadas de uma mudança profissional?
Trabalho no Grupo Pão de Açúcar há quase 5 anos. Entrei aqui crua, crua, sem saber o que era um emprego de verdade. Me encantei com os benefícios, a oportunidade de aprender, o peso do nome. Afinal, é o maior varejista do Brasil.
Dei o sangue, vesti a camisa. Em épocas de Natal e Páscoa, família e amigos esqueciam da minha existência. Em inaugurações de loja, fiquei dias fora de casa. Em treinamentos, passei semanas em Santos, Ribeirão Preto, Bauru. Trabalhei com a Elisa.
No fim de 2004 veio o que parecia ser um reconhecimento: um convite pra mudar de área e assumir uma coordenação. Uma baita responsabilidade, equipe se reportando a mim, aumento de salário. Isso foi há um ano e 4 meses.
Nesses 16 meses, comecei com o chefe bolha, que morria de medo de perder o emprego e sabotava a equipe. Roubava idéias, não assumia responsabilidades. Por conta dele, não pude desenvolver metade dos projetos que criei. O aumento de salário não veio, e eu fiquei com a carga de ser coordenadora sem receber a contrapartida de ter um salário maior. Somados à falta de educação mais pura e simples por parte da chefia, estes fatores quase me levaram a pedir demissão.
2005 foi um ano muito difícil, de chegar em casa chorando e sabendo que não podia mandar tudo à merda por conta das contas a pagar. Em maior ou menor grau, pude sentir o que é ser arrimo de família, mesmo que a família fôssemos eu, Beto e 2 gatos vira-latas.
No começo de 2006, houve uma grande reestruturação por aqui. Deixei de me reportar ao chefe bolha e estou agora com um chefe mais legal. Mas o ano passado deixou meu cargo configurado de uma certa maneira e nem todos os meus esforços conseguiram mudar isso. Meu chefe arretado tentou batalhar o aumento no RH, mas não teve jeito. A nova proposta da empresa é mudar meu local de trabalho e me colocar num cargo que está muito aquém da minha capacidade.
Uma amiga trouxe a oportunidade de fazer entrevista num outro lugar. Uma empresa bem menor, com cerca de 300 funcionários. Fui conhecer a proposta, eles gostaram de mim e me ofereceram uma coisa que estou achando muito louca: um cargo de gerência. Equipe de 70 pessoas. Responsabilidade total pelo resultado da loja. Perspectiva de crescimento. Salário fixo igual ao que tenho atualmentei, mais um variável de acordo com meu resultado. Bolsa pra fazer minha pós graduação.
E hoje estou aqui, esperando meu chefe chegar pra falar com ele.
Morrendo de medo, claro. Porque afinal eu trabalho no grupo Pão de Açúcar. Uma empresa estável, plano de saúde, cooperativa de crédito, nome forte no mercado. Aqui, por mais infeliz que eu esteja, estou numa situação quase garantida.
Mas se eu não arriscar agora, quando vou fazer isso? Quando tiver filhos? Quando minha mãe não estiver mais por aí pra me dar apoio? Aí não vai mesmo.
Se meu casamento acabou e eu não pude escolher, se as mudanças profissionais anteriores estavam além do meu controle, se não faço a menor idéia de como tudo vai acabar, porque não? É hora de dar o passo de fé, que nem o Indiana Jones faz na hora que vai cruzar o abismo.
Como disse Alê Félix, "A pior coisa que a idade me traz é a consciência da roubada." Posso dizer que se estiver fazendo merda, é consciente. Quando você aposta, existe uma possibilidade de perder. Outra de ganhar. É hora de achar que não existe colher e dobrar a realidade da maneira que eu acho melhor.
Pedir demissão é como terminar um casamento. São anos de convivência, a relação vai se desgastando, um lado faz promessas, o outro se enche de esperanças... Por isso, fiz uma versão melhorada - quase uma tradução - do diálogo com meu chefe na sexta:
- Chefe, precisamos ter uma conversa séria.
- Agora? Estou ocupado...
- Homens nunca querem discutir a relação.
- Imagine, eu dou um jeito de te ouvir enquanto faço uma outra coisa aqui.
- Muito bem. Eu vou embora.
- É mesmo? Não diga.
- Você não está prestando atenção em mim, né?
- Claro que estou...
- Pare de digitar. Olhe para mim. Eu vou embora.
- Mas a empresa te ama tanto!
- Sinto muito, mas nossa relação se desgastou.
- Mas são 5 anos de dedicação...
- Exatamente. Cinco anos e vocês nunca me valorizaram. Nunca disseram que me amavam. Não cumpriram suas promessas.
- Nós podemos melhorar... podemos mudar!
- Basta. Eu dei a vocês os melhores anos da minha vida, seus canalhas. E vocês não me deram nada em troca.
- Mas não se vá!
- Sinto muito... eu já estou tendo um caso secreto com outra empresa.
- Como assim?
- A outra é mais bonita, mais simpática...
- Mas nós somos ricos! Somos estáveis! Aqui você está garantida...
- Não importa. Preciso arriscar agora. Não estou ficando mais jovem.
- Nós podemos te dar mais coisas... aquele aumento que te prometemos...
- Esqueça. Não acredito mais em suas promessas vãs. A outra empresa me trata como uma mulher de verdade merece. Adeus!
- Pelo menos nos dê mais um tempo. Cumpra o aviso prévio...
- Tudo bem. Mas só por causa das crianças.
Vou embora no começo de maio. E com a sensação de que já vou tarde.
Conheci Ludmila Mafalda no último sábado, por volta de 4 da tarde. Lud estava pousada na lombada da minha edição encadernada da Eneida. Cascuda, Ludmila era a maior barata que eu já tinha visto. Naquele momento, ainda não sabia que seu nome era Ludmila Mafalda, claro. Gritei de medo, mas fui impedida pela minha mãe de matar a barata.
- É uma vida, minha filha.
- Dane-se o budismo, mãe, é uma barata!
- Nada disso.
Ela me enxotou do escritório onde encaixotávamos meus pertences para a mudança e tentou convencer Ludmila a sair pela janela. Obviamente, Lud correu pra baixo do armário e ali se escondeu.
Acabamos de embalar as dezenas de livros e minha mãe foi embora. Tomei um banho, relaxei e me preparei para ir ao aniversário do Kwuahara. Sentei um pouquinho na sala, esperando o brigadeiro esfriar para poder enrolar. Foi aí...
- Aaaaahhh!
Ludmila Mafalda tinha saído do escritório e passeava na parede a poucos metros da minha cabeça. Pânico. Tumulto. Gatos saltando. Corri para pegar a vassoura.
- Tome isto, sua nojenta!
Ludmila escapou por entre as palhas da vassoura e se refugiou em seu covil sob o armário.
Acendi todas as luzes da casa e liguei pra minha mãe:
- A barata voltou!
- Espanta ela.
- Eu vou é espancar a desgraçada.
- Tadinha...
- Tadinha o cazzo. Olha ela ali!
Desliguei o telefone e persegui novamente a criatura. De novo, ela me deu um baile e fugiu. Toca o telefone:
- Alô!
- La cucaracha, La cucaracha...
- Mãe, não posso crer que você está gastando telefone pra me ligar e cantar essa música...
- Matou?
- Claro que não...
Nisso já eram 10 da noite e eu tinha que ir pro aniversário. Fechei o perímetro do escritório, trancando a porta e colocando um pano úmido pra fechar a fresta de baixo. Fui pro aniversário. Contei pro Julio:
- Julio, cerquei o perímetro do escritório e a barata tá lá dentro.
- Das duas uma: ou ela sai pela janela ou vai chamar todas as amigas pra uma festa no apê.
Nessa noite, cheguei em casa muito tarde porque estava com medo de descobrir uma orgia de baratas com a cara do Latino acontecendo no meu escritório.
No domingo, mais coisas pra encaixotar e eu com medo de Ludmila. E ela nada, escondida sob o armário de tralhas do Roberto.
Na segunda, fui trabalhar pensando nela. A noite, voltei pra casa assustada com a possibilidade de ver a dita-cuja. Jantei de olho na porta do escritório.
Na terça já estava quase acostumada com a presença dela. Na quarta, vi uma antena saindo por trás da estante mas nem liguei.
Hoje de manhã, ao sair do apartamento para ir trabalhar pela última vez, olhei para trás: Da parede, Ludmila Mafalda me acenava um adeus emocionado.
- Adeus, Gabi! Esta é a última vez que nos vemos.
- Por quê? Por que a partir de amanhã estarei morando na casa nova?
- Sim. E também porque daqui a pouco os caras da mudança vão vir e me matar.
- Pedirei a eles que te poupem em nome de nossa convivência pacífica nesta semana. Você é a barata mais legal do mundo.
- Obrigada. Você também é legal. Todo aquele chocolate que você comeu em cima do teclado me alimentou bem.
- Então. Eu preciso ir trabalhar.
- Adeus, Gabi!
- Adeus... me diga, qual o seu nome?
- Ludmila Mafalda!
- Adeus Ludmila Mafalda! Me procure na Rua Tucuna. Você consegue voar até o décimo segundo andar?
- Claro. Por você eu faço tudo.
- Ludmila Mafalda! Você me ama?
- O meu sangue ferve por você...
Aí eu fechei a porta e vim trabalhar. Porque hoje foi o último dia no apartamento da Plínio de Moraes. A partir de amanhã, nova casa, de um quarto só, com sacada, piscina, academia.
Mas é difícil ir embora. Deixar pra trás as lembranças, os sonhos e as baratas. Não necessariamente nessa ordem.
Estatisticamente falando, qual a probabilidade de esfriar muito no dia seguinte à minha mudança pra um prédio com piscina?
Enorme, eu suponho.
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Aí eu mudei pro prédio novo e decidi que vou fazer valer meu condomínio. Desci ontem umas 8 e meia da noite pra fazer esteira na super mega academia que tem no prédio. E tinha duas pessoas lá: um gordinho e um negão.
Enquanto eu fazia minha caminhada (programa 3 da esteira: 5 minutos caminhando, 2 correndo, repetir até desmaiar ou por 45 minutos, o que vier primeiro) eu observava os dois moços malhando. O gordinho tinha uma toalhinha estampada que acho que foi presnte da avó. Ele carregava a toalha pra todo lado. Eu achei que era pra limpar os equipamentos, mas na verdade era pra limpar o suor da testa dele. Um nojo. E os equipamentos lá, todos suados. Claro que além de gordinho, o moço era peludo. E encheu as pranchas de pêlos e suor. Ainda bem que eu não uso pranchas.
O negão não tinha toalhinha, mas tinha uma garrafona de água de mais de um litro. Ele tomou umas 2 durante os exercícios. Fiquei impressionada com o tamanho do *sua piada aqui* estômago do moço e com a capacidade de fazer abdominais sem desmanchar os dreadlocks. Além disso, ele não suou nos aparelhos - usou só pesos - e não era peludão. Companhia muito mais agradável. Mas fiquei com raiva porque ele comeu um Prestígio ali, sentadinho na bicicleta ergométrica. Acho totalmente inadequado uma pessoa comer chocolate no meio da academia. E ainda por cima sem me oferecer um pedacinho.
Fiquei imaginando o que eles deveriam estar pensando da moça gordinha que tentava correr sem tropeçar nos próprios cadarços. Aí a Cyntia me ligou e eu corri, falei no celular, assisti TV e não desmaiei, tudo ao mesmo tempo. Uma beleza. Imagino que eles devam ter ficado impressionados com minha capacidade de multi tarefas.
Fiquei enrolando por lá pra assistir o fim de Close to Home, porque em casa ainda não tem TV a cabo. Fiz um monte de abdominais - no colchão, não na prancha cheia de cecê de gordinho peludo - e muitos exercícios para os braços e peitorais.
Muito orgulhosa de mim mesma, subi, comi alguns bombons trufados de sabores variados, tomei banho e capotei.
Hoje acordei com dor em muitos músculos, comi mais alguns bomboms trufados e vim trabalhar. Agora tá tudo doendo, desde a canela até a testa.
E hoje à noite, depois da terapia, irei novamente correr.
Eu sou brasileira e não desisto nunca.
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Gostaria de deixar um enorme agradecimento aos carregadore...ops, aos amigos que me ajudaram na mudança:
Junior e Julio, obrigada por tentar colocar todos os equipamentos elétricos. Nem fiquei brava por conta dos furos tortos pra colocar o microondas. Nem pelas luminárias que não estão penduradas ainda. O importante é que meu banheiro funciona. O churrasco pós quaresma também estava uma delícia - viva a picanha!!
Dona Rose: grata pela lula maravilhosa e pelo vinho de domingo. Bão demais.
Leonor Maria: você não carregou picas, mas deve ter sido muito difícil limpar 4 quilos de lula. Então obrigada de qualquer jeito.
Lucas: Obrigada por rolar comigo no colchão e cheirar meu chulé. A tia gosta muito de você, apesar de você ser criança.
Eu estava descendo a Brigadeiro Luiz Antonio e no sentido contrário subia uma velha. A velha estava completamente pelada, mas as pessoas à volta dela pareciam não notar. E eu pensava: "Meu deus, uma velha pelada subindo a Brigadeiro Luiz Antonio!". A mulher veio na minha direção e perguntou:
- Como eu chego na Paulista?
E eu pensando: "Mas ninguém vai avisar que ela está pelada??" E ao mesmo tempo respondendo:
- A senhora sobe direto, são uns três quarteirões...
E apontava pra cima. E a velhinha lá, peladona, escutando atentamente. Ela sorriu, me agradeceu e seguiu seu caminho. E eu desci a Brigadeiro.
E acordei. Fiquei o dia todo com esse sonho esquisito na cabeça, e à noite resolvi contar para minha terapeuta, achando que ia render algumas risadas.
- ... e foi esse o sonho.
- O que você acha que significa esta mulher?
- Que não posso comer chocolate antes de dormir.
- Eu não sei... Tenho outra visão.
- O quê?
- Eu vejo esta mulher como uma manifestação do seu inconsciente...
- Meu inconsciente é uma velha pelada?
- Neste caso, sim.
- Mas e daí?
- Estamos falando de suas questões de sexualidade... Sua feminilidade, manja?
- Manjo. Manjo bem. Mas como assim uma velha pelada?? Que espécie de manifestação inconsciente é essa?
- Trata-se de um arquétipo muito antigo... A mãe, a avó... E ainda por cima procurando a Avenida Paulista, em busca do coração da cidade...
- Mas eu não estou em busca do meu coração... sei bem onde ele mora, ali no meinho, inclinado pro lado esquerdo...
- Mas esta é a manifestação do seu inconsciente, oras.
- Minha nossa senhora, minha sexualidade é equivalente à de uma velha pelada.
- Não é isso, é só um arquétipo...
- Porra, eu não vou dormir essa noite.
Aí eu fui pra casa. E não dormi porque eu fiquei pensando que cazzo uma velha pelada procurando a Paulista tem a ver com a minha vida. Cheguei à conclusão que deve envolver pelancas em algum nível. E também que pago caro demais pra minha terapeuta pra ela falar essas abobrinhas.
Os meninos descobriram um bar e lá me levaram depois de muitos pedidos sinceros:
- Me levem ao Asterix!
- Não...
- Por quê, seus monstros egoístas?
- É um lugar do mal...
- Mas vocês vão sempre e adoram!
- Um dia você irá entender....
Aí eu usei meus poderes manipuladores femininos ("Ei, a gente não precisa ir ao Asterix, vamos apenas até a Prainha...") e fomos ao referido bar na sexta passada. Trata-se de um local que é um paradoxo espaço-tempo. Nem mesmo Gerson, com suas teorias de física, consegue explicar porque cargas d'água lá o Penin é atendido com presteza, enquanto em qualquer outro lugar do mundo ele é vítima de uma maldição que faz com que os garçons o ignorem solenemente.
É um templo divino que serve centenas de tipos de cerveja. Cervejas uruguaias. Inglesas. Alemãs. Belgas. Cervejas belgas feitas por processo artesanal num mosteiro, feitas por monges trapistas, coisa de beber rezando.
Um lugar onde o garçom responde:
- Não tem copo grande, só o de 1250ml.
Onde o Gerson, depois de uma volta ao mundo com cerveja, diz:
- Quero uma ingleja gostante!
*tradução:uma cerveja inglesa, que seja gostosa e venha bastante*
Onde podemos tomar uma cerveja feita por uma cervejaria chamada "Sccotish Courage" que nos faz entender bem melhor aqueles caras pintados de azul.
Onde o dono cumprimenta o Thiago pelo nome.
Onde uma cerveja é descrita em seu rótulo como tendo "a strong, yet smooth hoppy flavor". Ainda não descobrimos o que é "hoppy", mas depois de tomar a dita cerveja começamos a compreender.
Onde sedimentamos a idéia de que em Julho iremos tomar uma cerveja que custa duzentos reais. Cada um levará uma nota de cinquenta e a colocará sobre a mesa sem sentir pena, dando início ao ritual ancestral. O garçom trará a cerveja e servirá em quatro copos adequados. E a tomaremos como nunca se tomou cerveja antes.
Onde gastamos todo nosso dinheiro. Este é o problema do lugar e por isso meua amigos não queriam que eu fosse até lá. A conta alcança números impressionantes. Felizmente, eles aceitam todos os cartões de crédito.
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No sábado, rolou um momento cerveja no Valadares, um boteco na Lapa que serve acepipes como testículos de galo. Isso me deixou um pouco preocupada; afinal, quantos galos morrem para que se sirva uma porção de testículos de galo? Ou galos são castrados? Que tamanho tem um testículo de galo?
Entre Bohemias, decidi não testar o sabor do petisco. Mas comi uns torresmos, deixando o Julio de queixo caído com minha ousadia gastronômica.
Mas não ainda como atum - as redes deles matam golfinhos, oras!
Conheci pessoalmente Lilhá e Eric, que recentemente assassinou seu blog. Também ouvi da boca de Alê Félix a frase da noite:
- Vocês transaram?
Tive uma crise de riso de 15 minutos.
Junior adorou minha echarpe rosa, os garçons puseram a gente pra fora, fomos pro Fran´s, eu comi torta de chocolate e fui supercedo pra casa: umas quatro da manhã.
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Ainda inconformada com a magia do Asterix, propus ao Penin e ao Thiko um cineminha no domingo: Quem Somos Nós, filme sobre física quântica.
O fato do mesmo estar em cartaz apenas no Gemini, ao lado do Asterix, é mera coincidência.
O filme deu um nó em nossas cabecinhas, e saímos da sessão tomando cuidado, pois descobrimos que nossos pés não tocam o chão, que nossos corpos não são feitos de matéria sólida mas sim de partículas que aparecem e desaparecem constantemente, que deus existe, e que o poder da mente está comprovado cientificamente.
Embasbacados com nossas descobertas e sentindo-nos seres iluminados, resolvemos conversar sobre o filme. Aonde? No Asterix, claro.
E depois fomos pro Fran´s tomar café.
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E neste fim de semana foi fundada oficialmente a sociedade secreta AUAB, que não tem distinção de raça, credo, orientação sexual ou sabor de picolé favorito.
Trata-se de sociedade secreta, com raízes na maçonaria, na Opus Dei, na TFP, nos Panteras Negras, nos antigos rituais xamânicos do Pacífico Sul e Oceania e nas conversas de mesa de bar ao redor do mundo.
Eu poderia explicar melhor, mas depois teria que matar a todos.
- Vamos lá que eu vou te pagar um café. Faz tempo que a gente trabalha junto e nunca te paguei nada.
- Opa. Quero um capuccino.
- Seguinte: tô muito chateado com a sua saída.
- É mesmo?
- Eu tentei te segurar aqui, mas você sabe que estava fora do meu controle.
- Eu sei.
- E você sabe que eu tentei o que pude pra resolver sua situação anterior.
- Sei sim.
- Não vão achar ninguém pra te substiuir. Vai fazer falta a sua bagunça.
- Tem certeza?
- Tenho. O dia que você coreografou a galera cantando "Se ela dança, eu danço" vai entrar pra história.
- Minha nossa... vocês se lembram...
- E você roubando bem casado no casamento da Elisa foi muito bonito.
- Ah. Isso foi mesmo.
Meu olhos se encheram de lágrimas, os dele também, tomamos nosso cafés e depois ganhei um abraço bem forte.
- Se cuida, baixinha.
- Sim senhor.
- E pára de me chamar de senhor que eu me sinto velho pra ser teu pai.
- Mas você tem idade pra ser meu pai.
- É mesmo. Tinha esquecido.
- É a esclerose.
Subimos rindo e eu me despedi do andar inteiro. Aí apertei a mão do Gilmar:
Abracei os mais queridos, chorei um bocadinho meio disfarçado, abri o berreiro na hora de dar tchau pra tia da limpeza e pro boy, tomei mais um café e saí escondidinha.
No caminho pra casa, vi um taxista rastafári.
Vou sentir saudades de coreografar o andar inteiro:
- Vamos lá! O pessoal do Comercial! "Se ela dança, eu danço... se ela dança, eu danço!" Mais energia, Celsão!!! É isso aí, Eliete! Todo mundo! "Ela só pensa em beijar, beijar, beijar!"
Homem que sabe dançar é ótimo. Homem cheiroso, idem. Homem bonito, maravilha. Homem bem vestido é show de bola.
Todas essas coisas juntas, em grande quantidade e sem camisa só podem significar uma coisa: você está no meio de uma boate gay.
Tudo começou quendo a Regina, que faz faculdade de Moda, comunicou ao Thiago que iria ao aniversário de um colega de classe. Festinha essa que realizar-se-ia na The Week, popular casa gay na Lapa.
Thiago, sentindo-se intimidado ante a perspectiva de ter que ir junto, chamou seus fiéis amigos heteros para acompanhá-lo na empreitada. Eu obviamente topei: roubada, teu nome é Gabi!
Gerson sabiamente declinou da oferta. Lelê alegou uma falência financeira e não foi.
Fomos: eu, Thiago, Regina e, surpreendemente, Penin. Os quatro heteros. Vá lá, depois de conhecer a Isis eu sou pelo menos uns 90% hetero - já é alguma coisa.
A The Week é um mega clube enorme, que funciona num antigo galpão na Guaicurus. Com diversos ambientes, é caro pra cacete - Para alívio do meu bolso, tomei apenas água com gás, ao módico custo de quatro Reais a unidade.
Chegando, fomos logo pra pista, porque era a unica coisa sensata a se fazer naquele momento. Enquanto eu mostrava todo meu suingue, Regina me aponta:
- Olha aquele cara ali no canto... não parece alguém?
- Caraca, o Joselito é veado!
O personagem de Hermes e Renato, num cantinho, rebolando.
Dali a pouco, pergunto:
- Regina, tem hetero aqui?
- Fora a gente? Talvez...
- Devem ser aqueles caras ali, encostados na parede, com cara de apavorados.
Mudamos de pista, e vi um japonês de cabelo comprido, cerca de um metro e quarenta de altura:
- Regina, olha ali o Celso Kamura!
- Ele é o maquiador oficial da Cori, sabia?
- Quem é o quê de onde?!
- Vocês são heteros mesmo, hein?
Subitamente surgem diversos rapazes sem camisa, usando bermudas de lycra e arranjos de cabeça em formato de penachos de galo. Sim, eram adereços de cabeça feitos de penas, como uma crista de galo. Eles subiram em palquinhos espalhados pela casa e começaram a dançar. Para alívio dos meninos, também havia uma menina de shortinho fazendo uma emocionante perfomance rebolativa. Penin me pergunta:
- Gabi, os caras têm uma propaganda da Flash power na bunda!?!?
- Claro. A propaganda é a alma do negócio. Público-alvo é tudo e eles estão anunciando no local mais visado da noite: a bunda dos go-go boys.
- A propaganda é a arma do negócio, no caso.
- Por deus.
Lá pelas tantas, o Penin:
- Preciso ir ao banheiro. Me ajudem.
Fomos acompanhar nosso amigo, para garantir a sobrevivência do jovem Penin naquele antro. De repente me vi no meio de dezenas de homens sem camisa. Todos malhadíssimos, dançando, suados. Era impossível atravessar a pista, tamanho o aglomerado de corpos masculinos.
- Gente, não dá pra passar!!!
- Penin, dá pra segurar o xixi?
- Claro. Com certeza! Definitivamente.
Achamos outro banheiro do lado de fora logo depois, para alívio dos meninos.
Depois dessa experiência, decidimos ir embora. Esperamos apenas 35 minutos pelo carro e pude enfim descansar a cabecinha nos meus lençóis cor de melancia.
Conforme eu recuperava a capacidade auditiva e massageava meus pés cansados, meditei sobre a noite e descobri que tudo nessa vida é muito relativo: Estar cercada de homens lindos, cheirosos e sem camisa pode ser uma visão do paraíso ou do inferno, dependendo das circunstâncias. Ou como bem definiu a Regina:
- Ali eu estava no Limbo. Não era bom, mas não dava pra dizer que era ruim. Afinal, eram homens lindos, cheirosos e sem camisa.
- Homens?
- Er. É. Né?
- Acho que é.
Hoje acordei meio surda e estou ouvindo Marvin Gaye desde então, para tentar desintoxicar os ouvidos de todo aquele eletrônico.