Eu por mim mesma
30 anos, paulistana, corinthiana, blogueira, dona de 4 gatos, viciada em chocolates, séries, cinema e livros, entre outras nerdices.
Entries for September, 2006
September 3rd, 2006
Roberto Justus Style
Geralmente o inferno astral acaba no seu aniversário. O meu não.
Fui demitida. Assim, sem mais nem menos, sem KY, sem nem ao menos pagar um jantar antes.
Agora o lance é procurar emprego. Claro que primeiro vou fazer três coisas: Usar o vale-masagem que a Blogagi me deu, ir ao casamento do Pablo no Rio sem esquentar muito a cabeça, e dormir todas as horas que eu fiquei devendo nos últimos quatro meses.
Minha única preocupação é como vou pagar as contas, mas sempre posso vender drogas para completar o orçamento. Ou cestas de café da manhã. Ou organizar eventos.
Pensei um pouco e fiz uma lista das coisas que eu sei fazer:
- Vender coisas
- Cozinhar
- Ficar horas no msn
- Escrever no blog
Tô na merda.
Mas tudo bem, porque eu vou jogar os números do Lost na Mega Sena e ganharei. Só não vou ganhar sozinha porque o Zé vai fazer o mesmo.
Aí a Blogagi, muito sabiamente, me deu de aniversário um spa day. Isto é: um dia num spa urbano, recebendo tudo que os famosos ganham na Iha de Caras, menos a toalha de praia escrito "Caras".
Cheguei cedo ao local. Uma casa cheia de árvores, numa rua tranquila da Lapa. Cheguei e fui recebida por uma moça muito simpática. Ela me deu um chá.
- Bebe este chá. É um blend de ervas e vai preparar teu corpo para as atividades do dia.
Preparar meu corpo? Epa. Fiquei um pouco preocupada, mas bebi o treco.
A primeira atividade era um café da manhã natural: cookies de aveia, pão integral, pão de queijo fresquinho, geléia orgânica, mussarela de búfala natural, coalhada, granola, uma belezinha. E tome chá! Comi como uma louca, pensando na quantidade de fibras que estava ingerindo e em quão saudável era essa alimentação. Nham. Ainda bem que eu, de fato, gosto dessas coisas.
Aí a moça simpática me levou para um tour pela casa, enquanto tomávamos mais um chá. Desenhada por um arquiteto malucão que abandonou a profissão para criar um espaço holístico, o local tem vários níveis, escadas, portas, tudo muito rústico e cheio de plantas. Cheio mesmo. Eu adoro, mas aquilo era uma mata Atlântica preservada. Fiquei pensando se deveria ter ido com uma roupa cáqui e um facão de abrir picadas.
Tomei mais um chá e fui levada para um ofurô. Isso sim é vida, minha gente. Uma hora submersa em água muito quente com óleos essenciais e pétalas de rosa. Pétalas de rosa, por deus! Uma delícia, e um cheiro muito bom. Aquela água quentinha, eu me sentindo como um saquinho de chá gigante. Fui relaxando, relaxando...
De repente, pânico. Todo aquele chá fazendo efeito de uma só vez. Xixi no ofurô não dá. Eu ali, pelada, pensando: Minha nossa, e agora? Olhando loucamente para os lados, vi uma cortininha suspeita. Me embrulhei num roupão felpudo e... a-há. Atrás da cortina, um banheiro. Lindo. É incrível como esse povo holístico pensa em tudo.
Mais aliviada, voltei ao molho e ali fiquei até enrugar como uma uva passa. Fui despertada por sininhos, e então conduzida a uma sala onde passei por um atendimento radiestésico com o tal arquiteto malucão. Ele leu meu passado, presente e futuro usando um pêndulo que oscilava sobre uma tabelinha de papel. Segundo ele, arrumarei novo emprego, namorado, dinheiro, tudo que eu quiser, em apenas alguns meses. Adorei. Quero um pêndulo daqueles pra mim.
Depois, almoço natural: sopa de cenoura com abobrinha, arroz integral, crepe de espinafre, berinjelinha grelhada, suco de cupuaçu. E chá. Hoje eu tomei mais chá do que no último ano todinho. Mas tava tudo uma delícia.
Na sequência, duas horas de massagem. Óleozinho pra cá, cobertor elétrico pra lá, e eu babando um pouco no travesseiro. Tá, eu dormi, mas acho que ninguém notou. Enquanto uma eficiente fisioterapeuta realinhava minha coluna, eu sonhei que tinha cortado o cabelo e estava ótimo.
Depois uma mulher toda vestida de rosa fez uma massagem facial por 40 minutos, e nessa nem deu pra eu dormir porque ela chacoalhava a minha cabeça sem parar.
Aí elas me deram mais um chá, uma flor e acabou. Eu me chateei um pouco, pois queria morar ali pra sempre, naquele local holístico. Eu podia arrumar um emprego como anã de jardim, sei lá. Me desapegar dos bens materiais, quem sabe. Mas aí lembrei que aqui fora tem hamburguer e desisti.
Eu tô demorando pra postar sobre o feriado porque me faltam palavras. A emoção de ver duas pessoas que eu amo se casando é muito grande.
Sei que muita gente não acredita no casamento como instituição e acha uma tremenda besteira essa história de até que a morte os separe.
Mas só de olhar pra cara da Clau e ver o sorriso dela, ou o brilho nos olhos do Pablo na hora que ela entrou no salão, dá pra acreditar fácil, fácil no amor.
Foi bonito. Muito bonito. E não pensem que foi um casamento formal. Pelo contrário. Crianças correndo, amigos dando risada, padre errando o nome do noivo, muita feijoada depois do "sim", chopes e um clima delicioso de festa em casa.
Todo mundo que estava lá estava feliz por poder participar e abençoar uma união bonita.
Eu me apaixonei pelo Rio e deixei um pedacinho do meu coração por lá. Juro que agora aprendi o caminho e vou voltar muitas vezes.
Mas vamos à história.
****************************************
Na sexta, partimos em direção ao Rio. Eu, Lica e Márcio, num Corsa, sem som. Tinha como não sair besteira? Não.
- ...aí quando eu fui pra Portugal eu cacei um javali.
- Minha nossa, Márcio, que coisa máscula...
- Eu usei uma escopeta.
- Antes isso do que os dentes.
Foram 8 horas de viagem, com direito a uma parada em Penedo para tirar fotos com um esquilo gigante e comer o mehor strudel da minha vida, com um creminho batido indecentemente saboroso. Chegamos ao Rio, onde fomos super bem recebidos na casa da Teca - um apartamento lindinho, com uma vista maravilhosa, em Botafogo. Priw logo apareceu com uma coleção de All Stars, inclusive um num tom de aubergine que era tu-do.
Na primeira noite, programinha moças: assitir comédia romântica e expulsar o pobre João da sala com nosso papo-calcinha. Ele aguentou até começarmos a assitir 10 Coisas que eu Odeio em Você. Esse homem é um forte.
Na manhã seguinte, mulheres se arrumando, pega carro, busca carro alugado, chama todo mundo, combina, organiza.... e por fim, casamento.
Os cariocas nos assustaram, dizendo que era muito longe e tal. Nem era tanto, pra quem já trabalhou perto de Interlagos e mora na Pompéia. Só o rio que invadia a estrada foi meio assustador. Lembrei da Marginal alagada, sei lá.
Chegando lá, nos acomodamos num cantinho estratégico ao lado da saída dos garçons, de maneira a sermos servidos de comida e drinques à vontade. Lelê, inclusive, abusou dessa prerrogativa e mandou ver no choppinho.
A noiva chegou na hora, mas o padre se atrasou bagaraleo. Ao invés de usar o tempo extra pra estudar, ele deve ter ficado dormindo. O pobre religioso achou que os noivos era Plablo e Cráudia. Uma beleza.
A cerimônia foi uma bagunça: crianças pulando, aliança na mão errada, falta de liberação de beijo na noiva, tudo do jeito que a gente gosta. Depois, uma festa delicinha, com feijoada, guerra de flores, roda de samba. Do jeito que a gente gosta.
À noite, deixamos o casal ir se divertir em sua noite de núpcias e fomos pro Puebla Cafe. Ainda não sei se foi a couve da feijoada ou o limão das micheladas, mas ainda bem que fomos a pé. Dirigir daquele jeito não seria uma boa idéia.
Ainda conscientes, eu, Lica, Beta e Alf tivemos um diálogo profundo ao apagar das luzes:
- Então.
- Opa.
- Né?
*roncam*
No dia seguinte, Marcio queria partir ao raiar da aurora. Mas como a Convenção de Genebra não permite tortura de prisioneiros, eu e Lica protestamos e conseguimos o direito a um banho e um café.
Depois de 8 horas de viagem, cheguei em casa feliz, mas com muita saudade.
Quando eu trabalhava, eu tinha tema pra post quase todo dia. Aí agora eu parei de trabalhar e terei que escrever sobre nada.
Incrível: hoje almocei num restaurante vegan com o Franz, depois fui pra Galeria do Rock com a Lica, onde adquiri um piercing lindíssimo.
Vejam só que belezinha: cheguei a considerar comprar ingresso pro show do Toy Dolls, mas lembrei que não tenho tostão e desisti. O Zé nunca vai me perdoar.
Conversei com minha mãe e desisti de voltar pra casa dela, pelo menos por enquanto. Combinei de roubar uns rangos da geladeira dela e boa.
Tenho ido dormir muito tarde. Isso deve mudar.
Tive que mandar a faxineira embora, droga. Minha casa ficará suja, pois estou viciada em msn e não farei os afazeres domésticos para ficar com meus amiguinhos falando besteiras.
Agorinha mesmo estava num chat com um monte de blogueiros falando de bodes. Bodes, gente.
Eu sempre acho que as coisas vão dar certo. Tenho essa mania desde pequena.
Mesmo quando tá tudo um horror, quando tá chovendo, frio e escuro, eu no fundo acho que vai ficar tudo bem.
Fico pensando que vai dar tudo certo, que as coisas vão se resolver, que o mundo vai se encaixar.
É como um extra em Star Trek, usando uma camisa vermelha, que desce num planeta desconhecido e é enviado numa missão de reconhecimento atrás da terceira colina.
Todos sabem que ele VAI ser comido/alvejado/desmembrado por uma forma de vida alienígena. O extra sabe, os demais tripulantes sabem, os espectadores sabem.
Eu não. Eu torço pelo extra. Eu acho que ele vai sair dessa.
Nos filmes, eu tenho certeza que um cara com 3 tiros no abdômem vai sobreviver. Mesmo que ele seja o melhor amigo piadista do detetive durão que poderia vingar sua eventual morte covardemente orquestrada pelo chefão do crime.
Na vida real, eu tenho certeza que o dinheiro do aluguel vai aparecer, que a vida vai mudar pra melhor, que o mundo é bem melhor quando as pessoas sorriem. Ainda acredito no amor e que as pessoas são boas.
Tenho certeza que tudo fica bem no final - e que se não está bem, é porque não acabou.
O melhor de tudo é quando eu deixo essa síndrome de lado por uns dias. Aí eu fico agressivinha, deprimida e sujinha.
Sujinha não, que eu tomo banho.
Mas enfim, eu fico toda chatinha. Aí eu resmungo e falo besteiras e tenho crises de choro na Marginal Tietê ouvindo Coldplay.
E de repente acontecem coisas que me fazem mudar de ponto de vista. Um telefonema, uma conversa, uma música.
Semana passada, um Hare Krishna se aproxima de mim:
- Olha aqui este incenso!
*espirra*
- Não, obrigada.
- Então este livrinho!
- Não, obrigada.
- E este...
- Não quero nada, moço.
- Mas é para ajudar...
- Não vou ajudar nada, não sou Hare Krishna e não gosto de laranja!
Aí eu fui sair andando e dei um chute na canela dele. Foi absolutamente sem querer, mas pôxa, era um hare krishna e você acha que eles estão mais perto de Deus, ou que são iluminados, sei lá. Chutar religiosos nunca é uma boa. Ele me olhou com olhinhos meio marejados e saiu correndo enquanto eu tentava balbuciar umas desculpas.
Aí eu fui ao McDonald´s e comprei um guaraná. Custa R$1,85, eu dei dois reais e a mocinha me voltou moedas de troco no valor de quinze centavos.
- Você gostaria de dar as moedas para ajudar as crianças com câncer?
- Não.
Foi uma resposta tão reflexa quanto inesperada para a pobre atendente. Enquanto ela sorria amarelo, eu considerava o que seria socialmente mais aceitável, inserir as moedinhas no cofre ali colocado para este fim, explicar o que tinha acontecido ou gritar: "Eu odeio crianças com câncer!!!" e sair correndo e dar um duplo twist carpado em direção às portas, pra dar aquela disfarçada sutil.
No fim, enfiei as moedas no bolso, peguei meu guaraná diet sem pedras de gelo e saí com cara de paisagem.
Então, no mesmo dia eu chutei um religioso e não quis dar quinze centavos pra salvar crianças com câncer. Se isso não me comprar uma passagem direta pro inferno, sem escalas, eu não sei o que compraria. Tá, tavez aquela vez que eu falei que o cara na cadeira de rodas não devia ficar passando pra lá e pra cá no meio da pista de dança. Mas isso é outrs história.
Na hora de dormir eu pensei mais ou menos assim:
- Senhor, eu sei que hoje não fui uma boa menina, mas peço desculpas, sério. Eu não gosto muito de crianças, mas não quero que elas tenham câncer nem nada. E os Hare Krishna são legais. E eu gosto de laranja. Tenho até um blazer laranja, o Senhor sabe, aquele da Renner, que eu comprei no crediário, né? Aliás, preciso pagar a prestação da Renner, tem jeito do Senhor dar uma força? Valeu.
O problema de ir ao Hopi Hari é a depressão que vem depois.
Como uma depressão pós-parto, uma grande felicidade pode vir seguida de uma grande tristeza.
Porque na boa, o Hopi Hari é tipo o paraíso.
Logo na entrada, um totem marca a altura, em centímetros, numa escala que começa nos 90 cm e vai até 2,20m. E eu tenho um metro e sessenta. E tenho fotos pra provar.
Um lugar que diz que eu tenho um metro e sessenta só pode ser o paraíso.
Não obstante, nele existem diversos brinquedos que te levam à uma saudável descarga de adrenalina, como coisas que caem, rodam, despencam, sobem e descem.
O problema é o day after.
Sabe quando você vai numa festa e você come bem, e bebe bons vinhos, e usa uma roupa maravilhosa, e seus amigos estão lá, e o cara mais lindo do mundo fica te paquerando, e você é popular, e você é a alma da festa?
É, eu também não sei, mas imagino que deva ser uma sensação maravilhosa. E que no dia seguinte você acorde pensando: "Oh, meu Deus, eu nunca mais serei feliz porque nunca mais terei uma noite como a de ontem".
Por isso, desde que voltei do Hopi Hari andei numa ressaca de adrenalina. Tá tudo meio chato por aqui.
Existe uma expressão em inglês que eu acho muito boa: To take for granted. Significa considerar ago muito garantido, como se aquela coisa fosse ser sua pra sempre, ou estar ali para sempre.
Acho que estava considerando assim muitas coisas da minha vida. Até o ano passado, eu tinha um casamento, um emprego, uma vida toda arrumadinha e bem feitinha.
Eu tinha amigos bacanas e fazia coisas legais, e pra mim tava bom daquele jeito. Eu gostava da minha vida e da minha rotina, de acordar e trabalhar numa grande empresa, de chegar em casa e jantar com o namorido, de dormir sabendo exatamente o que ia acontecer no dia seguinte.
Então veio 2006.
Eu passei o Reveillon de 2006 na casa de uma amiga, depois fui pro finado Atari Club e passei a madrugada dançando sem parar, suando e pulando, até o dia raiar.
Dizem que o que se faz na virada do ano e no dia primeiro é o que se fará no resto do ano, e, minha gente, deu certo.
Em janeiro acabou o casamento. Um susto, um medo enorme de ficar sozinha pela primeira vez em muitos anos. Depois, mudei pra um apartamento menor, com a minha cara, do meu tamanho. Nele pendurei elefantes no teto, fiz um jardim na varanda, uma nave espacial na cozinha superequipada, um cantinho de escritório bem ajeitado. Nele enfiei livros, DVDs, e amigos, muitos amigos.
Aí em Maio mudei de emprego, apostando numa oportunidade que me pareceu imperdível. Perdi a aposta e o emprego, e agora estou desempregada, morando sozinha, sem ter noção de como vou pagar as contas mês que vem ou de onde vou tirar a ração dos gatos.
Durmo tarde, acordo tarde, vou ao Hopi Hari no meio da semana e mando milhares de curriculums por aí. Cozinho minha própria comida e escrevo, escrevo, escrevo. Não sei o que vou fazer amanhã. Muito menos na semana que vem.
Fui pro Rio amadrinhar um casamento, voltei com a sensação de que podia morar lá. Ou em Belo Horizonte. Ou aqui mesmo.
Não faço a menor idéia do que vai acontecer comigo.
E no fundo, a sensação é boa. Porque esse lance de se sentir garantido, na verdade, é uma grande balela. Nunca se sabe quando seu marido vai fugir com uma criatura que é viciada em chapinha como se fosse crack, ou quando seu chefe vai cansar de olhar pra sua cara de ressaca na segunda de manhã.
Certezas nessa vida são muito poucas: amor de mãe, imposto de renda e a sensação estranha de que aqui, onde estou, é exatamente onde eu deveria estar.
2006 será meu ano mirabilis ou meu ano horribilis. E sou eu quem vai decidir isso.
Nesse momento, sou tabula rasa, e posso escrever em mim o que eu quiser.
Então, já fui intimada duas vezes a fazer esse trem aí embaixo e até agora nada.
Tenho que falar 6 coisas sobre mim e pedir a 6 pessoas que façam o mesmo. Se eu não repassar essa corrente a seis pessoas, um coelho gigante com um tiro na cara igual ao do Donnie Darko vai me visitar quanto eu estiver lavando os cabelos com os olhos fechados.
E pô, eu lavo o cabelo todos os dias. E geralmente com os olhos fechados. E eu tenho medo do coelho gigante com tiro na cara.
Vamos lá.
1. Eu de fato tenho medo do monstro do armário. E do escuro. Eu não durmo com a porta do armário aberta, nunca. Quando morava com minha mãe, tinha um armário enorme no quarto que era a última coisa que eu via antes de dormir - e sempre que acordava dava uma olhada pra ver se a porta do dito-cujo não estava aberta. Hoje, morando sozinha, eu checo as portas antes de dormir. E durmo com o interruptor do abajur bem à mão. Em caso de medo no meio da noite, acendo a luz bem rápido e me tranquilizo.
2. Adoro a madrugada, aquele último horário antes do sol nascer. Quando é bem escuro mesmo, e muito frio. Dependendo de onde se está, tem névoa, um sereno leve. Em São Paulo,é um dos poucos momentos onde se pode respirar um ar muito puro e fresco. Mais gostoso que ir dormir tarde pra ver a aurora é acordar bem cedo, quando ainda está escuro, e tomar um copo de leite geladinho com nescau olhando pela janela e esperando o dia amanhecer.
3. Minhas frutas preferidas, de longe, são goiaba e mexerica. Ponkan, murkot, branca ou vermelha, qualquer uma. Das mais doces às mais azedas, eu amo mexerica. E goiaba eu como até bichada. Eu amo o cheiro das frutas. Na verdade, eu sou muito ligada no olfato. Mexerica e goiaba, pra mim, têm cheiro de infância. Basta descascar uma ou morder a outra pra imediatamente lembrar do sítio que meu tio tinha e do dia que eu e minha prima comemos todas as mexericas e goiabas que haviam no pomar. Eu tinha uns 8, 9 anos. Ela tinha 7. E nós tivemos uma dor de barriga tremenda, claro, que entretanto não tirou meu gosto por goiaba e mexerica.
4. Quando era pequena, queria ser médica. Achava lindo aquelas roupas brancas, e meu pediatra era muito bacana, sempre me dava um pirulito no fim da consulta, contava piadas sem graça para minha mãe e tinha cheiro de sabonete Phebo. Quando fiz 12 anos, ele deixou de me atender, mas ainda achava o Dr João Paulo o máximo. Fiz até colegial de Biológicas, mas no último ano desisti. E prestei Psicologia. Depois tranquei e acabei me formando em Hotelaria. Aí fui trabalhar no varejo, no grupo Pão de Açúcar. O que isso tem a ver com Hotelaria? Me pergunto até hoje. Mas no fim das contas, gostei da brincadeira e quero continuar trabalhando com isso. Sou boa no que faço e sinto prazer em faezr bem meu trabalho.
5. Eu consigo ler a mente dos outros. Tá, não de todo mundo, mas eu deduzo coisas que as pessoas não me contam. Minha intuição é boa pacas e eu deveria dar mais ouvidos a ela. Isso evitaria muitas merdas que acontecem na minha vida. Eu geralmente sei quando as pessoas estão mentindo, ou escondendo alguma coisa, ou quando alguém não está bem, está chateado. Eu sou empática e as vezes acho que teria dado uma boa psicóloga. Aí me lembro do quanto eu me envolvo nos problemas dos outros e acabo deixando pra lá.
6. Eu gosto de redes. Queria ter uma rede na varanda, pra me enfiar ali e me cobrir com uma manta e ficar bem quentinha. Redes fazem um barulhinho gostoso e balançam de leve. E isso é bom. Eu poderia ficar dentro de uma delas para sempre, eu acho. Se eu não tivesse que limpar a casa, ou fazer almoço, ou arrumar as coisas pra passar o fim de semana fora. Redes são bacanas.
Fui ao cinema com Mamãe assistir O Diabo Veste Prada.
Meryl Streep divina de novo ao interpretar a editora de uma grande revista de moda. E tome figurinos maravilhosos!
Eu queria todos, todos os casacos, os sapatos, as bolsas, óculos escuros, e até mesmo a boininha xadrez que a mocinha aparece usando. E as botas Chanel até a coxa? Oh my.
Não sou uma pessoa fútil, obviamente. Mas as botas Chanel? Ah, me tiraram do sério. Se eu tivesse dinheiro, compraria e usaria, nem que fosse para ir até a padaria.
Depois do filme, faminta, fui comer com a mamis.
Galeto desossado, sem pele, acompanhado por folhas verdes da estação. Não veio nem um tomate no prato.
Notei que um pedacinho do galeto ainda tinha pele. Torradinha e crocante, cheia de gorduras e hormônios animais.
Deixei para comer no final, naquele último bocado, pra ter uma boa lembrança daquele pobre franguinho.
Para que ele não houvesse morrido em vão, entendem? Porque acabar com uma vida apenas para ingerir proteínas sem gosto não vale a pena, carmicamente falando.
A vaidade nunca foi meu pecado capital favorito, mas agora que o Big30 se aproxima eu agradeço por ter começado a usar cremes dermatológicos bem cedo.
E agradeço pelo fim do meu casamento que me fez emagrecer sete quilos, que até a presente data não voltaram. E cuja ausência me proporciona usar calças tamanho 42, que ficam até larguinhas na cintura de pilão que voltou a existir no meio do meu tronco.
Hoje achei um cabelo branco e o arranquei. Sem dó, sem nem pensar que isso na verdade é um sinal de amadurecimento, que a idade traz experiência e que a cada cabelo branco que se arranca, dois nascem.
Dane-se a vivência e a experiência. Foda-se a superstição. Já comprei um novo tubo de wellaton e irei pintar meu cabelo em breve.