Eu por mim mesma
30 anos, paulistana, corinthiana, blogueira, dona de 4 gatos, viciada em chocolates, séries, cinema e livros, entre outras nerdices.
Entries for December, 2007
December 6th, 2007
Dear Santa
Querido Papai Noel,
Como todo ano, aproveito este espaço pra publicar minha cartinha de Natal. Muita gente fica tirando sarro, mas eu realmente acho que o senhor lê meu blog. Rolam uns acessos da Finlândia, que eu tenho certeza que são seus. Ou dos duendes, né? Ou de islandeses que falam português fazendo buscas bizarras sobre velhas peladas. Mas isso é outro assunto.
Ano passado eu pedi um emprego de Natal, lembra? Pedi também um vestido da Zara, um All Star dourado ou a Paz Mundial. O senhor trouxe o All Star e o emprego, então achei super legal os 50% atendidos e resolvi pedir mais um pouco esse ano.
Enfim, eu fui uma boa menina, mais uma vez. Não mandei nenhum cliente tomar no cu, não mandei o chefe tomar no cu, não mandei os meus credores tomar no cu. Falei um pouco de palavrão. Mas não foi muito, não.
Também tentei pagar todas as minhas dívidas. Consegui pagar pelo menos a metade, e nem pedi ajuda ao PAC do governo Lula. E assim que consegui pagar algumas coisas dei um aumento pra faxineira ao invés de pagar o Amex, porque achei que ela precisava mais do que eles.
Adotei mais um gatinho, doei dinheiro ao Greenpeace, deixei o carro em casa e fui trabalhar de metrô muitas vezes, mas liguei o ar condicionado naquele dia que fez 34 graus em São Paulo. Eu sei sobre o aquecimento global e tudo mais, mas naquele dia o aquecimento global tava começando dentro do meu carro, se é que o senhor me entende.
Mantenha em mente que eu me comportei direitinho e vamos aos pedidos, que são um pouco extravagantes.
Primeiro o de sempre, que eu peço todo ano e o senhore insiste em não trazer: Paz Mundial, o fim da miséria e da fome e tud mais. Eu sou brasileira e não desisto nunca, quem sabe o senhor muda de idéia e arruma um saco bem grande pra me atender?
Também queria pedir umas mudancinhas no emprego. Trabalhar um pouco menos, menos horas semanais. Um aumento de salário seria bem bacana, até pra eu poder ser uma boa menina e aquietar os caras do cartão de crédito, que me ligam toda semana e ficam nervosos comigo.
Aliás, se der, me faça ganhar na Mega Sena, porque eu juro que ia resolver várias coisas: pagava os caras, trabalhava menos, e de quebra ainda contribuiria pro fim da miséria, porque eu ia ajudar pessoas, inclusive a faxineira que precisa bastante e tal. Ia mesmo, não é papo de finalista de Big Brother nem de candidato a deputado: eu prometo que se ganhar na Mega eu dôo uma parte substancial pra caridade.
Aliás, falando em Big Brother, que tal o senhor me trazer uns programas de TV menos idiotas? E uma TV a cabo que não me dê problema, porque eu mudei da NET pra TVA e a merda continua. Ai, desculpa, falei mais um palavrão. Mas o senhor tá vendo que é só o segundo, né?
Traga também saúde pra mim, pra minha família e meus amigos, pra todo mundo estar bem pra ir passear no veleiro classudo que eu vou comprar com o dinheiro da Mega Sena.
Ah, e faça com que o filme de Sex and the City seja bom, pra eu não querer morrer de desgosto depois.
Acho que é só isso: dinheiro, saúde e um filme com roupas glamourosas já está bom.
Se não der, pelo menos faz o Corinthians voltar pra primeira divisão, tá?
deixei minha cartinha aqui dizendo que eu fui uma boa menina esse ano e pedindo presentinhos simpáticos, modestos e bondosos. E aí o que o senhor me traz, com uns dias de antecedência?
Minha demissão.
Pois é. Meus chefes me chamaram pra uma reunião, e alegando que eu não estava comprometida com o negócio - apesar das minhas em média 12 horas por dia - anunciaram meu desligamento.
E eu já tô achando que não adiantou nada eu ser boazinha e não falar palavrão e dar aumento pra faxineira, uma vez que agora eu vou ter que demitir a pobre Zilmara que não vai poder comprar peru de natal esse ano.
Então eu vou começar a ser má e falar palavrões e ofender as pessoas, porque agora eu tenho uma ótima desculpa pra isso. Então lá vai. O senhor vai ser o primeiro:
Seu velho surdo, quando eu disse que queria trabalhar menos, não era parar de trabalhar, caraleo.
Aí ontem antes de dormir eu pensei que pelo menos ia poder dormir umas 16 horas seguidas pra relaxar, e o que o senhor me traz? mais um presentinho antecipado: um operário quebrando a rua com britadeira, às sete e meia da manhã!
Sério, Santa, tô achando que o senhor tá de sacanagem comigo.
Pra compensar essa merda toda, o senhor vai ter que me trazer a Mega Sena E os vestidos glamourosos da Carrie. Não aceito menos que isso.
Agora que estou mais calma, andei analisando minha demissão com frieza. E a primeira conclusão a que eu chego é que tucanaram o bilhete azul. Durante toda a conversa, a palavra demissão não foi mencionada sequer uma vez. Ou melhor, foi. Mas só por mim.
Foi mais ou menos assim. A mulher do RH começou:
"Decidimos finalizar seu contrato conosco"
- Sei. "Tivemos que tomar uma decisão", afirmou a Chefe I.
- Certo. "Acreditamos que é melhor liberar você para buscar suas conquistas em outro lugar", disse o Chefe II - Então quer dizer que estou demitida?
Eles me olharam, como se eu tivesse falado um palavrão. Se eu houvesse amaldiçoado seus primogênitos eles não teriam ficado tão chocados, eu acho.
Porque sério, me liberar para buscar conquistas soa tão lindo, né? Parece uma coisa tão boa. Eu sempre quis ser cantora de música folk, tipo uma Joni Mitchell tupiniquim. E eu queria escalar o Everest e ser a primeira gordinha a subir a mais de 5000 metros de altura sem balão de oxigênio. E eu queria muito fundar uma organização de ajuda e lutar pela inclusão social dos gatos de três patas.
Pena que os filhos da puta esqueceram de mencionar que não vão pagar meu salário enquanto luto pelos meus sonhos em outro lugar.
Bem, como eu não estou trabalhando e ainda não entrei no pique Seinfeld de escrever sobre o nada, vou compartilhar com vocês uma historinha recente.
Tudo começou quando a loja onde eu trabalhava foi reformada. Bem na entrada, o diretor achou por bem colocar uma bela banca de flores. O chefe II, apesar de falar "menas" e não saber exatamente o que dizer na hora de demissões, tem lá suas competências. Com a exposição mais reforçada, a venda de flores triplicou, a responsável pelo setor ficou feliz e a entrada ficou lindíssima, com uma explosão de cores e perfumes de orquídea.
Corre à boca pequena que na verdade a banca foi colocada ali porque na hora de fazer a planta da loja esqueceram de definir o local exato, e ao questionar o Chefe II sobre onde posicionar a banca, ele respondeu: "Bota em qualquer lugar onde essa merda caiba, puta trambolho dos infernos, da próxima vez faz uma banca menas grande!" E aí a responsável pelo setor e eu colocamos ali, por ser o único local onde cabia o paquiderme em forma de banca, mas isso é só um boato. Vamos dizer que o mérito é todinho dele, porque ele merece. E quem sabe assim ele vire uma pessoa menas besta. Mas estou divagando.
O fato é que a banca ficou linda - e enorme. A parte da frente tudo bem. Mas na parte de trás da banca, onde uma promotora ficava montando os arranjos e buquês, ficou bem no meio da passagem do caixa rápido. E a responsável da Frente de Caixa - cujo nome era Gardênia, vejam que fina ironia - ficou muito brava. Gardênia não poderia se importar menos com a venda de flores. Para ela, o que vale é a produtividade de suas operadoras. Operadora tem que passar os produtos rápido, não errar na hora de digitar o código das frutas e sorrir bastante ao dar bom dia. Operadora não tem que ficar apertada por causa de flores.
E as duas começaram uma guerra fria. Uma vinha reclamar da outra pra mim:
- Gabriela, a Michele colocou um vaso a mais e fechou toda a passagem... - Gabriela, a Gardênia abre o caixa de propósito só pra minha promotora ficar apertada... - Gabriela, a promotora da Michele está usando o caixa fechado para colocar vasos em cima, está molhando tudo... - Gabriela, a Gardênia mudou o caixa preferencial ali pro canto pra atrapalhar a minha venda...
O espaço de oitenta centímetros entre a banca de flores e o caixa se transformou numa faixa de Gaza. Atentados terroristas envolvendo vasos de fores tombados, operadoras molhadas e clientes irritados começaram a pipocar. Os dois lados sofriam baixas e eu era uma espécie de Cruz Vermelha, atendendo a ambas mas sem tomar partido no problema.
Até que um dia a promotora bateu na operadora com uma orquídea. A moça era alérgica e começou a espirrar sem parar. E a orquídea perdeu metade das flores no impacto, que apesar de ser não-intencional, foi bem grande.
Chamei as duas na minha sala:
- Gardênia, meu chuchu. Não adianta ficar de birra, porque a banca de flores vai continuar ali. A venda triplicou e isso é ótimo.
Michele deu um sorriso triunfante e Gardênia cruzou os braços.
- Michele, minha fofinha. Não adianta achar que eu vou tirar um caixa dali, porque eu não vou. Precisamos de todos os caixas abertos porque senão dá muita fila. Então não use o caixa como bancada, não coloque vasos em cima dele e não molhe as operadoras.
O sorriso de Michele murchou e Gardênia descruzou os braços.
- Pras duas: o que importa é que a banca vai continuar ali E AO MESMO TEMPO o caixa vai continuar ali. Vocês podem conviver amigavelmente ou ficar se odiando e alugando meu ouvido pra sempre. A escolha é de vocês. Elas resmungaram alguma coisa e desceram para a loja para assinar o armistício. Eu fiquei me sentindo o Henry Kissinger de saias e a paz voltou a reinar na entrada da loja. As duas moças ficaram amigas e descobriram que o marido de uma é compadre do irmão da outra e que as duas moravam na Penha. O meu chefe continuou a falar "menas" e "poblema" e as vendas continuaram aumentando.
Quanto a mim, o final também é feliz: neste momento estou prestes a ir relaxar na varanda ao invés de estar prestes a ter uma crise de gastrite causada por stress.
Tenho tentado também assinar um tratado de paz entre a Cuca e os outros gatos, mas eles não aceitam meus termos, tomaram a palmeirinha como refém e exigem resgate em latinhas de ração.
Estavámos, eu e minha mãe, enfurnadas em um shopping na última sexta feira, em busca de presentes que faltavam debaixo da árvore. Minha genitora, apesar de muito saudável, vez por outra surta e anuncia:
- Quero comer um McSalad Bacon! - Mas e a gordura? E o colesterol? Isso não é kosher! - Nhé! Pede uma coca grande pra acompanhar. - Benzadeus.
Derrotada, comprei os lanches - e ganhamos duas casquinhas por pagarmos com nosso cartão de débito (se pra fazer merchandising recebesse, o nome do cartão aqui eu colocaria). Empanturradas com aquele monte de gordura, entrei numa enorme fila para pegar as casquinhas grátis. Foi ali que conheci Ana Carolina.
Tinha uns seis anos, magrela, mulata, usando um vestido amarelo e maria-chiquinha colorida, e era a cara da mãe, uma moça mais branca que eu e com o cabelo tingido num terrível tom de loiro platinado. Carol falava sem parar, e eu acabei sendo incluída na conversa.
- Como você chama, moça? - Ana Gabriela. - Nossa, eu sou Ana Carolina, é quase igual, né? - É. - Moça, você acredita em Papai Noel? - Claro. - Porque eu pedi uma boneca pra ele. Mas não sei se ele vai trazer. É meio cara, sabe?
Olhei pra mãe dela, que sussurrou "Trezentos reais!", rolando os olhos pra demonstrar o desagrado.
- Hummm... geralmente ele traz o que a gente pede sim. - E quando você era pequena, existia Papai Noel? - Existia. E ele já era velho, sabia? - Nossa, então quantos anos ele tem? - Muitos. - Ele existe desde quando? - Desde que existe criança, acho. - Eu acho que ele não existe não. - Como assim? Por quê? - Porque o Papai Noel da escola é diferente do Papai Noel lá de casa.
Olhei de novo pra mãe, que sussurrou de novo "Meu cunhado é negro..." e deu uma risadinha. Aí entendi bem. A loira era casada com o negão e o cunhado se vestia de Papai Noel africano pra entregar os presentes por lá.
- Bom, você já parou pra pensar que pode ser que o Papai Noel pode ser meio diferente pra cada um? - Como assim? - Ele tem que visitar um monte de lugares nessa época. Eu acho que o de verdade é aquele que vai na nossa casa, os outros são tipo auxiliares dele, sabe? - Hummmm... por isso o meu Papai Noel é negão? - É, acho que é!! - Ahhhhh tá.
Havia chegado a vez dela na fila. Enquanto ela se decidia entre casquinha simples, mista ou de chocolate, a mãe se virou pra mim:
- Ela tá naquela idade que os amiguinhos começam a falar que Papai Noel não existe... é complicado. - Imagino. - Obrigada por ajudar. Ela tem que acreditar um pouco mais, ainda. - Acho que todos nós precisamos.
As duas se foram com suas casquinhas na mão, eu peguei a minha e a da minha mãe e fui pra mesa com a sensação de dever cumprido. Porque eu realmente acho que todos nós precisamos acreditar um pouco mais no Papai Noel.
Foda-se quem acha que Natal é uma data hipócrita. Talvez no fundo dessa chamada hipocrisia exista um desejo real de que as pessoas tenham um feliz Natal, um feliz ano novo. Então deixo vocês aqui com a história da Carol e aproveito pra desejar de verdade um ótimo final de ano e um 2008 muito melhor pra todos.
Que no ano que vem, todo mundo seja mais feliz, coma melhor, ganhe mais dinheiro, tenha mais saúde, mais amor, mais motivos pra sorrir, mais oportunidades de passear, de viajar, de dormir bastante e de fazer todas aquelas pequenas coisas que a gente quer fazer e sempre acha que não tem tempo ou grana pra fazer.
Por isso, desejo a todos um 2008 repleto de filmes legais, sorvete gelado, bolo de chocolate, caipirinha, massagem no pé, banho morninho, sonecas à tarde, bichos de estimação, frutas frescas, presentes surpresas, areia no chinelo e muito mais coisas boas.
Um beijo pra todo mundo e uma careta pra quem não gosta de Natal e Ano Novo.