Ainda está lá
O Monte Everest mede exatos 8.848 metros de altura, do nível do mar ao seu ponto mais alto. Ele se ergue nos contrafortes do Himalaia, sobre aldeias miseráveis, confrontos políticos e religiosos. Muitos homens tentaram subir neste monstro de rocha e neve, muitos morreram tentando.
Em 1923, o montanhista britânico George Leigh Mallory foi entrevistado pelo NYT e lhe perguntaram por que ele desejava alcançar o topo do Everest. Sua resposta: Porque está lá. No ano seguinte, Mallory tentou novamente subir a montanha e nunca mais desceu. Seus restos mortais foram encontrados apenas em 1999, mas suas palavras são a explicação emblemática do desejo incontrolável dos montanhistas de escalar.
Em 1953, um neozelandês com pulmões de capacidade dois litros acima do normal chegou no topo do mundo, junto com um pequeno guia nepalês. Edmund Hillary, um homem alto que cresceu entre criações de abelhas e picos nevados em Auckland, dividiu a arremetida final comTenzig Norgay, um experiente montanhista. Como um time, eles alcançaram o topo da montanha. Tiraram suas máscaras de oxigênio e fotografaram as alturas, descendo depois para um chá quente no acampamento base.
Ao retornar, o reconhecimento foi bem maior para Hillary. Nomeado Sir, recebeu comendas, títulos e nomes. Durante décadas, jornalistas perguntavam quem havia sido o primeiro a de fato colocar o pé no topo da montanha. Ambos se recusavam a dizer, afirmando sempre que havia sido um trabalho em dupla. Depois da morte de Tenzig, Sir Hillary publicou uma biografia e revelou a verdade: ele havia sido o primeiro, apenas porque Tenzig, sempre precavido, parou para prender a corda no chão. E que a diferença entre ambos era mínima, e que no final isso não importava, uma vez que sozinho ele jamais teria chegado até ali.
Sir Hillary empregou boa parte da sua fortuna no desenvolvimento e preservação do Nepal. Fez discursos inflamados contra a política local; entristeceu-se com a destruição dos Budas gigantes; criou escolas, hospitais e uma fundação que leva seu nome e o de Tenzig e que visa manter a exploração do Himalaia dentro dos limites da preservação natural, protestando contra as centenas de montanhistas que abandonam seu lixo nas trilhas, e garantindo que os povoados no sopé das montanhas recebam pagamentos justos pelos serviços que prestam.
Sobre chegar lá no alto, ele escreveu: "Espanto, maravilha, humildade, orgulho, exaltação. Essas deveriam ser as emoções dos primeiros homens a subir no mais alto pico da Terra, depois que tantos outros falharam. Mas minhas emoçoes dominantes eram alívio e surpresa. Alívio, porque o grande esforço havia terminado, e o inatingível havia sido atingido. E surpresa, porque havia sido eu, o velho Ed Hillary, o apicultor, que foi bom aluno no ginásio, mas nada demais no ensino médio e nem havia ido à universidade, o primeiro no topo do Everest."
Sir Edmund Hillary morreu na semana passada, aos 88 anos. Do alto de seu metro e noventa de altura, ele afirmava ser apenas um neo-zelandês comum. E afirmava que os grandes feitos vêm de pessoas comuns com habilidades comuns, mas que tinham uma grande vontade e grandes sonhos. Ao contrário de muitos montanhistas, que desejam ter suas cinzas deixadas nas alturas, Sir Hillar deixou expresso seu desejo de que seus restos mortais fossem espalhados em uma baía de Auckland, onde ele vivia, "para ser levado embora gentilmente, talvez em uma das muitas praias agradáveis, perto de onde nasci. Então o ciclo da minha vida se completará."
O Everest continua nos contrafortes do Himalaia, e silenciosamente testemunha a lembrança do homem que fez dessa montanha sua conquista e seu tributo às gerações de nepaleses. Algo me diz que mesmo sendo levado embara pelo oceano, o velho Ed vai acabar voltando às alturas. Boa viagem, Sir.
as 01:56 PM 1 YA REALLY!
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Garçom (guest)
